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Destaques

A manogamia existe?

Cresci em um lar cristão e tem coisas que são difíceis de tirar do coração, sabe? Mas desde mais novo eu sempre me perguntei: como é possível um casal durar tantos anos sem desejar outra pessoa? Ou será que, quando acontece uma traição, é só um casamento por conveniência, ou por acreditar nos valores da fé? Eu não tive tantas experiências em relacionamentos, e faz um tempo que venho estudando bastante sobre isso. Com o que li e refleti, percebi que a resposta não é um simples “sim” ou “não”. Ela existe, sim, mas não é algo concreto, universal ou que todo mundo nunca sinta. Se relacionar é uma forma de viver uma vida leve e, para muitos, super gratificante. Mas também não é a única via possível para o amor, o desejo ou um sentimento verdadeiro. Quero falar sobre isso com total respeito, sem julgar quem escolhe viver monogâmico, poliamoroso, aberto ou qualquer outro tipo de compromisso consensual. O que importa é o que funciona para cada um, desde que haja honestidade, comunicação e cons...

Resenha do Livro: Um Homem Chamado Ove - Fredrik Backman

Música de hoje: The Night We Met - Lord Huron. Triste na medida certa. 🎧

Nem sei ao certo por que desejei tanto ler este livro. Minha lista de leituras só cresce a cada dia, mas acredito que a capa tenha chamado bastante a minha atenção entre tantos outros títulos que ainda quero ler. Talvez exista algo que, de alguma forma, ensine apenas ao observar a imagem de um homem sozinho, olhando para o horizonte. No geral, esse tipo de personagem costuma carregar humor, humanidade e alguma lição calma sobre a vida. Foi com essa expectativa que finalmente decidi ler Um Homem Chamado Ove.

Ove tem 59 anos e está cansado de viver. Perdeu a esposa, Sonja, a única pessoa que deu sentido real à sua vida. Antes disso, já havia perdido os pais, a casa da infância e, aos poucos, tudo aquilo que estruturava sua ideia de mundo. Para Ove, o presente parece apenas uma sucessão de dias inúteis, e o futuro não oferece nenhuma promessa. Ele não vive apenas uma vida triste. Ele está exausto.

Sua raiva é direcionada a tudo e a todos: aos jovens que decidiram que ele já não serve mais para trabalhar; aos funcionários públicos que tentam interferir na vida de quem ele ama; aos novos vizinhos que não respeitam regras simples, estacionam errado, invadem seu jardim e parecem simbolizar tudo o que ele despreza no mundo. A raiva mantém Ove funcional, mas, ao mesmo tempo, o empurra para a ideia constante de colocar fim à própria vida, já que tudo o que ele deseja é reencontrar sua esposa.

O curioso é que Ove é péssimo em executar esse plano. E, enquanto suas tentativas fracassam, ele acaba sendo puxado de volta à vida por pessoas que nunca quis conhecer. Vizinhos, animais, pequenas responsabilidades e gestos inesperados começam a desconstruir, pouco a pouco, a armadura que ele construiu ao redor de si.

O que mais se destaca no livro é o humor. Backman consegue equilibrar temas extremamente delicados, como luto, depressão e solidão, com uma ironia precisa e profundamente humana. Ove é rabugento, rígido, crítico e, muitas vezes, politicamente incorreto, mas nunca ofensivo. Há algo genuinamente engraçado em sua forma de observar o mundo, sobretudo porque ele próprio sabe que já não se encaixa mais nele.

Esse humor funciona como um respiro. Sem ele, a história poderia facilmente se tornar pesada demais. Em vez disso, o leitor ri, se enternece e, aos poucos, entende que por trás daquela grosseria existe um homem muito ferido, que nunca aprendeu outra forma de lidar com a dor.

O ponto que pode afastar alguns leitores é o ritmo. A narrativa é lenta, focada muito mais na construção emocional do personagem do que no avanço do enredo. Os acontecimentos são simples e, por vezes, repetitivos. A história exige paciência, especialmente de quem busca ação ou reviravoltas constantes. Este é um livro centrado em pessoas, não em acontecimentos.

Ainda assim, a recompensa vem no impacto emocional. O livro lembra que todos nós carregamos uma história e que ninguém é apenas aquilo que aparenta ser. Às vezes, o que parece grosseria é apenas uma dor antiga que ainda não foi curada.

Terminei a leitura com a sensação de ter passado por algo simples, mas profundamente humano. Ri em muitos momentos, me emocionei em outros e, acima de tudo, senti vontade de continuar. Mesmo quando a vida parece imperfeita demais.

Minha avaliacão: ⭐⭐⭐⭐

Com amor, James. 

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