Harry Potter e os 25 anos de uma história que cresceu comigo
É muito difícil falar sobre Harry Potter sem falar um pouco de mim. Eu tinha 9 anos quando conheci essa saga e, obviamente, naquela época não fazia ideia do quanto aqueles livros e filmes fariam parte da minha vida. Eu era apenas uma criança descobrindo um universo completamente diferente de tudo aquilo que conhecia. Não sabia ainda que eu ia gostar de ler, não tinha uma relação com os livros como tenho hoje e muito menos imaginava que aquela história seria a responsável por abrir uma porta que permaneceria aberta durante toda a minha vida. Harry Potter foi o primeiro livro que li na vida e, talvez por isso, sempre terá um lugar que nenhuma outra história conseguirá ocupar.
Quando penso naquela época, lembro muito mais da sensação do que de detalhes específicos. Era como se eu pudesse abrir aquelas páginas e simplesmente sair da realidade por algumas horas. Eu entrava em Hogwarts, imaginava os corredores do castelo, as aulas, o Salão Principal, as casas, as amizades e todas aquelas aventuras que pareciam tão distantes do mundo em que eu vivia. Hoje consigo olhar para isso com mais carinho e perceber que Harry Potter foi um dos primeiros refúgios que encontrei, era nesse universo que eu fugia dos problemas familiares, era por meio da leitura que eu fugia da dor e dos problemas, que mesmo tão novo, me perseguiam. Eu não sabia o que era procurar um lugar seguro dentro de uma história, mas era exatamente isso que estava acontecendo. Enquanto eu lia, existia um mundo para descobrir e, durante aquele tempo, todas as outras coisas eu sabia que podiam esperar.
Depois vieram os filmes e a experiência ficou ainda mais marcante. Aquilo que eu tinha imaginado enquanto lia ganhou rosto, música, cenários e vida. Hogwarts passou a existir de uma maneira completamente diferente para mim. O Expresso, o Salão Principal, as casas, as paisagens, as criaturas e até os pequenos detalhes daquele universo começaram a fazer parte das minhas memórias, lembro de começar a colecionar muitas coisas, era revista, tags de livros, capas, os filmes, os livros, brinquedos, e quando dei conta, minha coleção de produtos já era enorme. Até hoje, algumas músicas dos filmes são capazes de me levar imediatamente para uma época que já passou há muitos anos. É louco perceber como algumas coisas conseguem guardar partes inteiras da nossa vida e continuar com elas.
O mais bonito, é perceber que eu cresci junto com Harry Potter. Enquanto os personagens cresciam, faziam amizades, cometiam erros, enfrentavam medos e descobriam coisas sobre si mesmos, eu também estava vivendo minhas próprias fases. A história foi mudando para mim porque eu também estava mudando. Quando era criança, eu assistia aos filmes principalmente pela aventura e pela fantasia, e por ser meu refugio mental. Hoje, consigo perceber outras coisas. Algumas perdas doem mais, determinadas escolhas fazem mais sentido e algumas relações que eu não entendia tão bem naquela época hoje me fazem olhar para os personagens de outra maneira.
É quase como reler a mesma história com uma pessoa diferente dentro de mim.
O livro continua sendo o mesmo, o filme continua sendo o mesmo, mas eu não sou mais aquele menino de 9 anos. Hoje tenho outras preocupações, outras responsabilidades, outros sonhos e outros medos. A vida adulta chegou me dando todas aquelas coisas que pareciam tão distantes quando eu era criança. A gente cresce e começa a pensar demais no futuro, nas escolhas que fez, no dinheiro, no trabalho, nos relacionamentos, nas responsabilidades e em tudo aquilo que precisa resolver. Aos poucos, aquela facilidade que tínhamos de simplesmente imaginar e aproveitar o momento parece ficar um pouco mais distante.
Talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de voltar para Harry Potter.
Quando reassisto a um filme ou abro um dos livros, existe uma sensação muito difícil de explicar. Não é apenas uma memória boa. É como se eu pudesse visitar uma versão antiga de mim mesmo. Volto para a infância, para aquele período em que a maior preocupação talvez fosse terminar uma história ou descobrir o que aconteceria no próximo capítulo. Volto para o menino que descobriu que os livros poderiam ser muito mais do que páginas e palavras. Eles poderiam ser minha maior companhia, imaginação, conforto e uma maneira de enxergar o mundo.
Às vezes eu gostaria de poder conversar com aquele James de 9 anos. Gostaria de contar para ele tudo o que ainda iria acontecer, todas as pessoas que conheceria, os lugares que visitaria, as coisas boas que viveria e também aquelas que talvez ele preferisse não saber. Mas, principalmente, gostaria de dizer para ele que não abandonasse aquela criança que conseguia encontrar felicidade em uma história. Porque, mesmo depois de tantos anos, essa criança ainda está aqui de alguma forma.
Ela está na minha vontade de ler, na minha relação com os livros, nas histórias que ainda procuro e até na vontade de escrever sobre aquilo que sinto. Hoje eu tenho uma relação muito maior com a literatura, leio autores diferentes, descubro histórias completamente novas e encontro livros que me fazem pensar sobre a vida de maneiras que eu jamais imaginaria. Mas existe algo especial em lembrar que tudo isso começou com uma criança de 9 anos segurando seu primeiro livro.
E talvez seja por isso que os 25 anos de Harry Potter também tenham um significado tão pessoal para mim. Não são simplesmente 25 anos de uma história que marcou gerações. São quase duas décadas da minha própria vida convivendo com esse universo. Harry Potter mudou minha infância, minha adolescência e chegou até a vida adulta. Em cada fase, ele significou alguma coisa diferente, mas nunca deixou de significar alguma coisa.
Acho que algumas histórias têm esse dom. Elas chegam em um momento específico da nossa vida e acabam crescendo junto com a gente. Quando somos crianças, elas podem ser apenas uma aventura. Depois, podem se transformar em uma lembrança. Mais tarde, talvez virem um conforto. E, quando percebemos, já não conseguimos separar completamente aquela história de quem nós somos.
Para mim, Harry Potter é assim. Ele está ligado à minha primeira experiência com a leitura, às minhas memórias de infância e àquela sensação de descobrir um mundo novo pela primeira vez. É uma história que me acompanhou durante anos e que, mesmo depois de tanto tempo, ainda consegue me fazer sentir alguma coisa.
Talvez essa seja a verdadeira magia de uma boa história: ela não precisa permanecer igual para continuar sendo importante. Nós mudamos, amadurecemos, enxergamos outras coisas e passamos a entender determinadas dores de uma maneira diferente. Ainda assim, quando voltamos para aquelas páginas, alguma coisa dentro de nós reconhece o caminho.
Eu posso ter 29 anos, ter uma vida completamente diferente daquela criança de 9 anos e ter conhecido centenas de outras histórias desde então, mas ainda existe um lugar dentro de mim que reconhece Hogwarts como casa. E eu acho bonito ter um lugar assim, sabe?!
Porque a infância passa. As pessoas mudam. Os anos correm muito mais rápido do que gostaríamos e algumas coisas que pareciam eternas acabam ficando apenas nas nossas lembranças. Mas existem histórias que nos ajudam a guardar aquilo que fomos. Harry Potter é uma dessas histórias para mim.
Quando penso no primeiro livro que li, penso nele. Quando penso em uma das maiores portas que a literatura abriu na minha vida, penso nele. Quando sinto saudade de uma versão mais leve de mim mesmo, de alguma maneira, volto para ele.
E talvez eu continue fazendo isso pelo resto da minha vida.
Porque algumas histórias nós lemos uma vez e seguimos em frente. Outras, porém, acabam encontrando um lugar tão profundo dentro da gente que, mesmo depois de fecharmos o último capítulo, elas continuam fazendo parte da nossa história.
Harry Potter foi o primeiro livro que li. Foi um dos meus primeiros refúgios e uma das primeiras histórias que me fizeram descobrir que a leitura poderia ser um lugar para onde eu sempre poderia voltar. E, tantos anos depois, ainda existe algo muito bonito em saber que, não importa quanto tempo passe ou quantas coisas mudem, quando eu abrir aquelas páginas novamente, uma pequena parte daquele menino de 9 anos ainda estará ali, esperando para voltar para casa. Obrigado, J/K Rowling.
Com amor, James.

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